Um
grupo de pessoas voltava da Santa Missão que estava acontecendo no povoado de
Flexeiras e ia em direção de Aguada (vilarejos do interior de Sergipe). Noite
tenebrosa aquela, a escuridão só aumentava o temor daquelas pessoas que tinham
acabado de escutar o padre pregar o sermão sobre quem ia para o céu ou para o
inferno e descrever, com detalhes, as atrocidades que o diabo prepara para os
pecadores, os perdidos de alma.
Uns
80 anos atrás, naquelas redondezas não havia eletricidade, tudo era breu, os
caminhos eram estreitos, onde aconteciam muitas marmotas. Época de medo,
de tempos difíceis...
No
caminho, procuravam tagarelar sobre amenidades para disfarçar o nervosismo que
pairava no ar pesado, prenúncio do sobrenatural. E no meio de uma prosa e
outra, eis que eles escutam um relincho estrondoso e o galopar violento de um
cavalo que parecia se aproximar rapidamente, cada vez mais, a galopada ficava
mais e mais perto e nada do cavaleiro aparecer, então todos já imaginavam o que
seria aquilo porque naqueles últimos dias surgiam os boatos de uma besta
estranha que corria pelos pastos da região.
O
pavor tomou conta do pessoal que suava frio, apressava os passos e não saia do
lugar porque a areia gorda que existia no caminho fazia os pés
afundarem, demandando um esforço enorme para caminhar, imagine bater pernas.
O barulho do trote do animal já os alcançava e as mulheres começaram a gritar,
de repente viram no pasto ao lado, passar em disparada uma Mula sem Cabeça* que
cuspia fogo pela boca e narinas que envolvia a fera e logo sumiu na escuridão.
Fogo pela boca e narinas? Não sei como, se não tem cabeça, vixe maria,
mas vamos aos fatos.
Todos
estavam estupefatos com aquela aparição, alguns com a consciência pesada pelas
faltas cometidas, já achavam que era o próprio cavalo do diabo que vinha atrás
deles e começaram a balbuciar o Credo de maneira incoerente em razão do pavor
que sentiam. Passados alguns minutos, voltam a escutar o trote, agora parecia
que vinha da frente em direção a eles. Daí, começam a correr em direção
oposta perseguidos pela correria alucinada da Mula que de repente parava
de correr e desaparecia, deixando-os sem saber em qual direção seguir, para
novamente aparecer de outra direção a investir violentamente sobre eles que
pelejaram pra lá e pra cá, a noite inteira, com Mula sem Cabeça, até os
primeiros lampejos do novo dia...
E
assim, naquele mundo real, aconteceu a Peleja com a Mula sem Cabeça...
(Texto de nossa
autoria)
*
Mula sem Cabeça - É a forma que toma a concubina do
sacerdote. Na noite de quinta para sabado, transforma-se num forte animal, de
identificação controvertida na tradição oral, e galopa, assombrando quem
encontra. Lança chispas de fogo pelas narinas e pela boca. Suas patas são como
calçadas com ferro. A violência do galope e a estridência do relincho são
ouvidas ao longe. Às vezes soluça como uma criatura humana.
(Wikipédia)