quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

A Peleja com a Mula sem Cabeça



Um grupo de pessoas voltava da Santa Missão que estava acontecendo no povoado de Flexeiras e ia em direção de Aguada (vilarejos do interior de Sergipe). Noite tenebrosa aquela, a escuridão só aumentava o temor daquelas pessoas que tinham acabado de escutar o padre pregar o sermão sobre quem ia para o céu ou para o inferno e descrever, com detalhes, as atrocidades que o diabo prepara para os pecadores, os perdidos de alma. 

Uns 80 anos atrás, naquelas redondezas não havia eletricidade, tudo era breu, os caminhos eram estreitos, onde aconteciam muitas marmotas. Época de medo, de tempos difíceis...

No caminho, procuravam tagarelar sobre amenidades para disfarçar o nervosismo que pairava no ar pesado, prenúncio do sobrenatural. E no meio de uma prosa e outra, eis que eles escutam um relincho estrondoso e o galopar violento de um cavalo que parecia se aproximar rapidamente, cada vez mais, a galopada ficava mais e mais perto e nada do cavaleiro aparecer, então todos já imaginavam o que seria aquilo porque naqueles últimos dias surgiam os boatos de uma besta estranha que corria pelos pastos da região. 

O pavor tomou conta do pessoal que suava frio, apressava os passos e não saia do lugar porque a areia gorda que existia no caminho fazia os pés afundarem, demandando um esforço enorme para caminhar, imagine bater pernas. O barulho do trote do animal já os alcançava e as mulheres começaram a gritar, de repente viram no pasto ao lado, passar em disparada uma Mula sem Cabeça* que cuspia fogo pela boca e narinas que envolvia a fera e logo sumiu na escuridão. Fogo pela boca e narinas? Não sei como, se não tem cabeça, vixe maria,  mas vamos aos fatos. 

Todos estavam estupefatos com aquela aparição, alguns com a consciência pesada pelas faltas cometidas, já achavam que era o próprio cavalo do diabo que vinha atrás deles e começaram a balbuciar o Credo de maneira incoerente em razão do pavor que sentiam. Passados alguns minutos, voltam a escutar o trote, agora parecia que vinha da frente em direção a eles. Daí, começam a correr em direção oposta  perseguidos pela correria alucinada da Mula que de repente parava de correr e desaparecia, deixando-os sem saber em qual direção seguir, para novamente aparecer de outra direção a investir violentamente sobre eles que pelejaram pra lá e pra cá, a noite inteira, com Mula sem Cabeça, até os primeiros lampejos do novo dia...

E assim, naquele mundo real, aconteceu a Peleja com a Mula sem Cabeça...
  
(Texto de nossa autoria)

* Mula sem Cabeça - É a forma que toma a concubina do sacerdote. Na noite de quinta para sabado, transforma-se num forte animal, de identificação controvertida na tradição oral, e galopa, assombrando quem encontra. Lança chispas de fogo pelas narinas e pela boca. Suas patas são como calçadas com ferro. A violência do galope e a estridência do relincho são ouvidas ao longe. Às vezes soluça como uma criatura humana.  (Wikipédia) 

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